Chuvas dobram o volume de lixo na Lagoa da Pampulha

O período chuvoso tem agravado as más condições da lagoa da Pampulha. O cartão-postal de Belo Horizonte tem se tornado ainda mais depósito de lixo trazido pela força das águas.

Diariamente, a Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap) tem retirado cerca de dez toneladas do espelho d’água, o dobro das cinco toneladas recolhidas no período de estiagem, segundo dados da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH).

Enquanto isso, o projeto de despoluição, relativo ao despejo de esgoto, segue travado e sem data para começar a ser executado.

“No ano de 2021, a média diária foi de aproximadamente sete toneladas. Trata-se de serviço de natureza continuada”, informou o Executivo municipal, por meio de nota. 

Reclamações

Quem mora na região reclama da situação. “A região da Pampulha está desacreditada em todos os sentidos. Quando começa a chover, fica ainda mais difícil, pois o lixo acumulado desce para a lagoa. As pessoas jogam lixo em lugar inadequado e quando começa a chover, ele desce pra água. Os moradores têm todo o direito de reclamar. Só que o problema vai muito além. É desagradável e degradante a situação”, analisa Leonardo Drumond, presidente da Associação dos Moradores dos Bairros São Luís e São José (Pro-Civitas).

Ele afirma que o aumento no volume de lixo agrava o problema de pernilongos e moscas nos imóveis no entorno da lagoa. “O lixo fica espalhado em boa parte das águas. Basta dar uma volta de carro para ver que a situação é bastante desagradável”, pontua. 

Sujeira visível

A situação foi verificada pela reportagem durante visita à região. Na margem da lagoa, foram vistos itens como copos e garrafas plásticas, embalagens de comida, isopor, papel e até galhos de madeira. A água da lagoa é visivelmente suja e poluída, e o mau cheiro é constante. 

A PBH esclareceu que, além de realizar a retirada do lixo flutuante, tem realizado o serviço de desassoreamento da lagoa. “De setembro de 2018 a setembro de 2021, os serviços executaram a retirada aproximada de 520 mil metros cúbicos de sedimentos da lagoa (170 mil metros cúbicos/ano) e resíduos do fundo do manancial”, informou o Executivo, em nota. 

Pouco efeito

Morador da capital e frequentador do cartão-postal, o antropólogo Rogério Pires, 39, afirmou que, apesar das intervenções informada pelo poder público, não consegue perceber melhorias no espaço. 

Ele lembrou que a despoluição da lagoa é uma história muito antiga e criticou: “Fala-se muito, e não percebemos muita diferença. Eu não resido aqui perto e não consigo, agora, ver diferença do que o local era há cinco, dez anos atrás. Não percebo diferenças”.

Plano para despoluição passa por ajustes

A despoluição da lagoa não tem data para começar. O plano de ação traçado pela Copasa após encontro com as prefeituras de BH e Contagem, em setembro do ano passado, está passando por ajustes, segundo a Prefeitura de BH. 

“O mesmo (o plano de ação) se encontra em fase final de revisão, como consequência de análise feita pela PBH, sendo ainda necessários alguns ajustes para a sua conclusão”, esclareceu o Executivo da capital, em nota. 

O objetivo central é despoluir a lagoa da Pampulha fazendo com que o esgoto não seja mais jogado nas águas. Grande parte dos córregos alimentadores da lagoa da Pampulha estão em Contagem, e todos são de esgoto, conforme a prefeita Marília Campos afirmou no encontro de 2021. 

Outras ações

O Executivo municipal de Contagem esclareceu que vem realizando “ações de desassoreamentos manuais e mecanizados de córregos e nascentes que deságuam na lagoa”.

Outras obras estão em andamento, como restauração e implantação de parques lineares, drenagem, microdrenagem e urbanização, ainda segundo a Prefeitura de Contagem.

Outros projetos serão desenvolvidos, como a drenagem do córrego Muniz.  

Falta coleta de esgoto para mais de 1.500

Para evitar que o esgoto seja despejado nas águas da Pampulha, é preciso levar o serviço até os lares, segundo a prefeita de Contagem, Marília Campos (PT). A cidade tem 6.182 clientes com rede coletora de esgoto em frente ao imóvel mas não estão conectados a ela, segundo informou a própria prefeitura, com base em dados da Copasa. Outros 1.508 clientes são clientes potenciais da Copasa – não possuem rede coletora de esgoto disponível. 

Procurada pela reportagem, a Copasa esclareceu que tem realizado ações para despoluir a lagoa da Pampulha. A empresa citou iniciativas como manutenções periódicas no sistema de esgotamento sanitário, monitoramento de córregos, implantação de novos trechos de rede e mobilização para adesão dos moradores à rede coletora disponível.

MINIENTREVISTA

Apolo Heringer, fundador do Projeto Manuelzão e professor

As ações paliativas realizadas atualmente para recuperar a lagoa são suficientes? Dia e noite, cada córrego que deságua traz barro e lixo. A Pampulha é um problema criado pelas pessoas que não tomaram os devidos cuidados. A Copasa é a maior lançadeira de esgoto em rio. É uma cultura de desleixo e impunidade. Empresa de saneamento jamais poderia ter tal atitude.

Qual o impacto de tanta poluição na fauna e flora da lagoa? O lixo prejudica e cotamina os peixes. Alguns não morrem de imediato, mas ficam cegos perdem nadadeiras. 

Há risco de a lagoa desaparecer? Se não houver cuidado, tudo aquilo vai desaparecer, e a lagoa virará um parque de baixada. É preciso fazer um grande investimento. Vejo que as prefeituras de Contagem e Belo Horizonte não querem resolver o problema. Mesmo assim, acredito que o caso Pampulha tem solução.