Anualmente são gastos R$32 milhões para despoluir a Lagoa da Pampulha

Nas últimas décadas, o desenvolvimento indiscriminado das cidades ao longo da bacia hidrográfica da Lagoa da Pampulha tem causado danos quase irreversíveis ao meio ambiente. O reservatório foi construído no final da década de 1930 para fornecer água potável para toda a região da Pampulha. O reservatório, que mais tarde perdeu 50% de seu volume, assim como a área do nível de água depositado pelos detritos e esgoto.

Meses antes do complexo receber o título de patrimônio mundial, a prefeitura começou a cumprir uma promessa antiga, repetida para a Unesco: a despoluição da lagoa. Ao custo anual de R$ 32 milhões, pagos pelo governo federal, são três contratos de manutenção do manancial para tratamento das águas para evitar maus odores e mortandade de peixes, além da limpeza do espelho d’água e desassoreamento. Só de lixo e entulho, são retiradas cinco toneladas por dia no período de estiagem, número que dobra durante as chuvas. 

Em 2017, o poder público chegou a anunciar que as águas atingiram o nível de classificação 3, o que permitiria o retorno dos esportes náuticos após mais de 50 anos. No ano seguinte, o fim do contrato com uma das empresas paralisou o tratamento da lagoa por quase seis meses. Mesmo com o curto intervalo de tempo, problemas antigos reapareceram, como o mau cheiro insuportável e até pontos com uma camada grossa de algas que se alimentam da matéria orgânica presente nos esgotos.

Para o ambientalista e fundador do projeto Manuelzão, Apolo Heringer, o trabalho desenvolvido nos últimos anos no espelho d’água não vai resolver o problema. “A lagoa é o último lugar para se investir. Antes, tem que fazer ações em toda a bacia hidrográfica, que tem 98 km² de extensão, para evitar que chegue lixo, esgoto e terra. São vários erros sistêmicos que persistem por décadas e décadas e mudaram a profundidade do manancial e fizeram a barragem aflorar”, alegou.

O especialista lembra que 85% da água que chega à lagoa, subafluente do Rio das Velhas, vêm de Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte. “A Pampulha é uma história de acomodação e a Copasa é a vilã daqui. Cobra para tratar o esgoto praticamente o mesmo que pela água potável, mas não faz esse trabalho. A companhia fala que a população não está aderindo (as ligações clandestinas) e não faz a conexão das casas com a rede, mas isso é algo fácil de resolver”, enfatizou. Além disso, Apolo defende que as nascentes e as margens de córregos que fazem parte da bacia devem ser protegidas. “A lagoa é o último lugar que deve receber investimento”, alegou.

Apesar de reconhecer os atrasos no cronograma de ações pactuadas com a Unesco, gestora do Conjunto Moderno da Pampulha, Janaína França, disse que uma das vitórias alcançadas nos últimos anos foi justamente a despoluição da lagoa. “Temos conseguido manter o contrato de manutenção da qualidade da água e o desassoreamento. São contratos grandes e muito importantes para que tenhamos a Pampulha em boas condições do ponto de vista ambiental”, justificou.

Copasa diz que 95% do esgoto da bacia é tratado

No encontro entre os córregos Ressaca e Sarandi, o mau cheiro ainda é uma realidade. De um lado, as águas escuras e fétidas indicam a presença do esgoto. Apesar da situação, a Copasa garante que 95% do esgoto gerado ao longo da bacia é interceptado e tratado e 99% da região conta com redes coletoras dos dejetos. Para alcançar o número, a companhia realizou investimentos de R$ 120 milhões.

“Para atingir os 100% de coleta e interceptação do esgoto gerado na Bacia Hidrográfica da Lagoa da Pampulha, além da conscientização dos moradores no sentido de interligarem o esgoto de seus imóveis às redes da Copasa, são necessárias ações, em conjunto com os municípios de Belo Horizonte e Contagem, para urbanização de alguns locais onde ainda não é possível disponibilizar a rede de esgotamento sanitário”, informou. 

Já a prefeitura de Contagem, que faz parte do Consórcio de Recuperação da Bacia da Pampulha, declarou que estão em andamento importantes obras de urbanização e saneamento que podem ajudar a solucionar o problema. “Um dos principais problemas identificados é o lançamento irregular de esgoto. Neste caso, a prefeitura, em conjunto com o consórcio, realiza vistorias, mobilização e investimentos, incentivando ligações regulares e, quando não realizadas, são feitas notificações”.

Via: O Tempo